
- Pasquale Cipro Neto (D) fala em audiência pública presidida por Ana Amélia, com Evanildo Bechara Foto: Geraldo Magela
O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa deve ser mantido, mas com
ajustes em situações de falta de clareza nas regras de grafia para
facilitar a aplicação e o ensino das novas normas. Essa posição foi
defendida pela maioria dos especialistas ouvidos ontem na Comissão de
Educação (CE).
Entrevistados pela Agência Senado, os especialistas discordam de
proposta de simplificação ortográfica pelo critério fonético, ou seja, a
escrita das palavras orientada pela forma como se fala. Esse sistema,
se adotado, levaria ao fim do ch, ç, ss e do h inicial, como na palavra
hoje, entre outras mudanças. A proposta foi apresentada na terça-feira
pelo professor Ernani Pimentel, também em audiência sobre o acordo.
Assinado em 1990 pelos países lusófonos, o acordo entrará em vigor no
Brasil em janeiro de 2016. No entanto, desde 2008, com a promulgação do
texto, está em curso o processo de transição para as novas regras, já
adotadas por editoras, escolas, veículos de comunicação e órgãos
públicos. Desde então, o acordo tem sido criticado por imprecisões e
regras pouco claras, que permitem diferentes interpretações.
Carlos André Pereira Nunes, professor de língua portuguesa e redação
jurídica, relatou divergência entre o acordo e o Vocabulário Ortográfico
da Língua Portuguesa (Volp), editado pela Academia Brasileira de Letras
(ABL).
— É preciso criar um protocolo mais rigoroso sobre fontes da
ortografia da língua portuguesa. Qual é a fonte? É o acordo? É o
vocabulário [o Volp, publicado pela ABL]? — questionou Nunes.
Crítico do acordo, o professor Pasquale Cipro Neto, consultor de
língua portuguesa, afirma que o texto é “nebuloso”, permitindo duas
grafias para a mesma palavra, como sub-humano e subumano, e critérios
diferentes para palavras que deveriam ser regidas por uma mesma regra,
como prequestionar e pré-qualificar, como consta do Volp.
— Não existe obra perfeita, mas os fatos mostram que houve atropelo.
Fica evidente que o texto carece de polimento, de uma aparada, de
soluções concretas. O acordo precisa passar por uma revisão, precisa ser
clareado — disse.
Entre os ajustes sugeridos, Pasquale destaca a necessidade de solução
“mais racional e objetiva” para o uso do hífen, posição também
defendida por Antônio Martins de Araújo, presidente da Academia
Brasileira de Filologia.
— O acordo tem que ser celebrado, mas a Academia Brasileira de Filologia
bate pé firme em favor da simplificação máxima do uso do hífen — disse
Araújo.
Multilateralismo
Na opinião da professora Stella Maris Bortoni, da Associação
Brasileira de Linguística (Abralin), não há espaço para revisões
unilaterais do acordo.
— A Abralin recomenda que se consolide o acordo ortográfico. O Brasil
é signatário do acordo, feito no âmbito da CPLP [Comunidade dos Países
de Língua Portuguesa], e não deve fazer alterações unilaterais. Qualquer
alteração deve ser multilateral, no âmbito da CPLP — afirmou.
Stella Maris considera urgente a conclusão do vocabulário comum entre
os países signatários do acordo. Ela sugeriu aos senadores da CE que
lancem mão da autoridade da comissão para recomendar pressa na
finalização desse compromisso da CPLP.
Ao fim do debate, o gramático Evanildo Bechara, membro da ABL e
representante brasileiro na CPLP, informou que o Instituto de
Linguística Teórica e Computacional (Iltec) está encarregado de fazer
uma revisão no acordo, o que vem sendo realizado por um grupo de
especialistas convocados nos oito países signatários do acordo.
As sugestões de ajustes apresentadas nos debates na Comissão de
Educação, disse Bechara, poderão ser consideradas pelos especialistas do
Iltec. Ele enfatizou, no entanto, que não estará em exame a proposta de
simplificação ortográfica que sugere a mudança do sistema misto atual,
etimológico e fonético, para o sistema puramente fonético.
Na condução do debate, a vice-presidente da CE, Ana Amélia (PP-RS),
explicou que a comissão exerce o papel de mediação, para que os
gramáticos cheguem a um entendimento.
— Não estamos aqui nem de um lado, nem de outro. Queremos chegar a
este ponto de reconhecer: existem falhas no acordo? Então, estamos
buscando exatamente esse centro para aperfeiçoá-lo, seja em forma de
errata, na forma de explicação ou de qualquer outra forma. Esse é o
nosso papel — observou.
Fonte: http://www12.senado.gov.br/jornal/edicoes/2014/10/23/gramaticos-defendem-alteracoes-em-acordo